Biosofia nº 46

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Espaço HPB

ÂTMAN

Não-Dualidade

Nos ensinamentos teosóficos de Helena Petrovna Blavatsky (HPB) e dos seus Mestres, tman surge enumerado como o mais elevado Princípio de Consciência e de Ser. Na verdade, e em rigor, por essa excelência e transcendência ontológica, é mais do que um Princípio individual, dada a sua universalidade e unidade.1

A Tradição Oculta encontra, nisto, ecos em alguns dos Upanishades e na Vedanta mais radicalmente monista ou não dual (Advaita). Embora se traduza o termo tman como Self, Si, Eu, Espírito, Eu Espiritual, etc., também como Alma e, infelizmente, até como Pessoa, em realidade tman não é um Eu Separado; é a Consciência não dual, é o Ser Universal, é o Todo-Brahman, a Unidade, o Espaço Cósmico. Apenas os envoltórios, ou upadhis 2 o circunscrevem e delimitam – na aparência ilusória.

Questões terminológicas

A questão dos diferentes Princípios ou níveis de Consciência é da maior relevância para a Filosofia Esotérico-Teosófica. Trata-se de uma referência incontornável, sem a qual nada ou quase nada tem sentido útil e coerente. Entretanto, importa refletir na necessidade de colocar no devido lugar o valor da terminologia Teosófica, incluindo a que se refere a esses Princípios.

A terminologia é importante, e precisamos, para compreender os ensinamentos da Teosofia, de estar cientes do que se quer significar com cada palavra (o que, de resto, assim será com qualquer sistema sapiencial ou científico). Não podemos usar palavras levianamente, com um sentido que não lhes foi dado, desvirtuando consequentemente o seu lugar no esquema global, e assim o desfigurando.

Não obstante, Helena Blavatsky e os seus Mestres aludiram por diversas vezes à dificuldade de encontrar, nos léxicos mais ou menos correntes, palavras adequadas para revestir uma Sabedoria Oculta, de que necessariamente estão desfocados os hábitos do pensamento e expressão correntes; uma Sabedoria Oculta outrora vertida na linguagem dos grandes Iniciados, na “língua dos deuses” ou “línguas dos mistérios”, e em símbolos, hieróglifos, ideogramas e imagens (de consciência) alusivas, não na “concretude” limitadora das nossas palavras.

Em A Doutrina Secreta, Helena Blavatsky não apenas refere que – no seu indómito Serviço Espiritual – constantemente se perguntava sobre a forma mais adequada aos homens daquele (e deste) tempo para expor uma panorâmica geral da Sabedoria Esotérica Imemorial, como também enfatiza que os termos que utiliza nada mais são do que alguns dos possíveis, entre os geralmente acessíveis, para transmitir ensinamentos originais de outras linguagens. Veja-se por exemplo o que diz no Proémio da obra: “Tenha-se presente que os termos Brahma e Parabrahman são aqui empregados, não porque pertençam à nossa nomenclatura esotérica, mas simplesmente por serem mais familiares aos estudantes ocidentais” 3. Se nos lembrarmos da equivalência Brahman- tman, é fácil deduzir que o mesmo se aplica a esta palavra.

Anatman?

Esta referência ao Budismo, suscita logicamente uma alusão comparativa ao seu interessante e desafiador 6 ensinamento de Anatman – não-Eu, inexistência de Eu, de qualquer realidade permanente no fundo dos seres. Adicionalmente, essa doutrina do Anatman defende que a ideia da existência de um tal Eu permanente é geradora de apego, separatismo e dor, sendo pois, não só falsa como nociva. Isto vem sendo considerado muito geralmente como um dos pontos fundamentais e consensuais do Dharma do Buda, mesmo se no vastíssimo cânone das escrituras Budistas existem passagens como esta do Mahaparinirvana Sutra “O tman é o Tathagatagarbha. Todos os seres possuem uma natureza de Buda: é isso que o tman é. Este tman, desde o início, é sempre coberto por inúmeras paixões (kleshas): é por isso que os seres são incapazes de vê-lo”; ou esta do Udana: “Há, monges, um não-nascido, não-produzido, incriado, não-formado. Se não houvesse, monges, um não-nascido, não-produzido, incriado, não-formado, não haveria saída para os nascidos, produzidos, criados, formados”. Alega-se que tais sustentações não são de “significado definitivo”, mas sim provisório, necessitando de ser adequadamente interpretadas, para se manter a doutrina de Anatman. Acrescenta-se até que qualquer tentativa de encaixar a existência de uma realidade plena e permanente como tman no Budismo representaria a sua radical desvirtuação.

Aqui e acolá, vozes significativas no seio do Budismo, persistindo na afirmação da doutrina referida, sugerem, contudo, que “algo” de permanente terá de existir. Interrogado pelo asceta Vacchagotta sobre a existência, ou não, de tman, o Buda manteve o silêncio, que explicou ao seu discípulo Ananda como a melhor forma de evitar que a sua resposta fosse interpretada nos extremos indesejáveis de eternalismo ou de nihilismo. Alguns sintetizam que: “Há tman; não há tman; há e não há; não há nem não há”. Que ninguém se ria apressadamente desta lógica subtil, muito mais rica e englobante que, por exemplo, a lógica aristotélica…

Por outro lado, existem os defensores da Grande Madhyamika, da doutrina Shentong (Vazio de Outro), mesmo que minoritários no universo budista conhecido. Conciliam o ensinamento de Shunyata (vazio, vacuidade) com a realidade de algo pleno, permanente e estável, como, nomeadamente, tman-Brahman 7. Com efeito, sustentam que há um substrato intrínseco (subjacente) à existência fenomenal (esta sendo totalmente vazia), de que é a base necessária; e que esse substrato é vazio de ilusão e de manchas, vazio de tudo, excepto de si mesmo 8, vazio de todas as outras “qualidades” que não a sua própria essência ou natureza inerente, eterna, pura, luminosa e sem manchas: a natureza do Buddha (Tathagatagarbha) ou Dharmata, a Realidade Última.

Que Âtman?

O grande instrutor Dolpopa Sherab Gyaltsen, expoente da escola Jonang 9, empregava assim o termo “Self” ou “Âtman” ou (em Tibetano) “Bdag” para se referir à verdade ou realidade última, no coração de todos os seres. Na sua obra A Montanha do Dharma, ele mencionou tal essência com termos como “Eu Supremo”, “Supremo Eu de todos os seres”, “Eu Verdadeiro”, “Eu Diamantino”. De resto, em outro dos seus escritos, o Quarto Concílio, distinguem-se três Eus/Sis/Selfs/ tman: o dos fenómenos, o individual, e o puro (e verdadeiro)10, 11. Enfim, no Autocomentário ao Quarto Concílio, completou: “Há uma qualidade e uma perfeição em entender a existência de um Self/Si. E também há tanto uma qualidade como uma perfeição em compreender a não existência de um Self” – só que diferentes sentidos de “Self”.

Reconduzimo-nos assim à dúvida: a que tman se referiu o Buda, problematizando a sua existência? Será uma questão em aberto. Na literatura da Índia, incluindo os Upanishades (a derradeira parte dos Vedas, o seu Jnana-Kanda), o termo é usado em acepções diferentes. tman afigura-se idêntico a Purusha em muitos Upanishades. No entanto, no Katha-Upanishad, 3: 10-11, lemos: “Além dos sentidos estão os objectos; além dos objectos está Manas (Mente); além de Manas está Buddhi; além de Buddhi está o poderoso tman; além do poderoso tman está o Imanifestado; além do Imanifestado está Purusha”. Por sua vez, no tma-Upanishad, 1: 1 descrevem-se três tipos de tman: o externo, o corpo (Ajayat- tman); o eu interno individual (Antar- tman); e o mais elevado (Paramâtman). Em alguns textos surge como fenomenal e implicado na acção, em outros como pura Testemunha. Com que díspares sentidos de tman, o nobre Gautama se não terá deparado na sua época?

Sintetizando tudo, alguns autores perguntam se o Buda negou absolutamente qualquer acepção do termo tman, ou se apenas negou o tman fenomenal e o tman pessoal, sem rejeitar um tman puro, não separado 12.

Âtman na Teosofia

Ora, o sentido em que “ tman” é usando na Teosofia, é a de Ser uno e incondicionado, além de atributos, separações ou individualismos pessoais, é a do próprio Todo Universal.

Helena Blavatsky afirma expressamente que tman:
* “Uno com o Absoluto, como sua radiação”13;

* “Não é o meu espírito nem o seu, mas, como o Sol, resplandece sobre todos. É o princípio divino universalmente difundido, inseparável de seu meta-espírito uno e absoluto, da mesma forma que o raio solar é inseparável da luz do sol” 14;

* “Não é propriedade individual do homem e sim a essência divina que precisa de corpo e forma. Que é imponderável, invisível e indivisível (…) Somente ampara ao mortal, pois o que penetra nele e preenche o seu corpo inteiro são apenas os seus raios de luz projectados por meio de Buddhi, seu veículo e emanação directa”15;

* É “o raio inseparável do Eu Uno e Universal. É o Deus que está por cima, melhor que dentro de nós”16;

* “É de facto Brahman, o Absoluto”17;

* “É a Realidade Única”18;

* “Embora considerado exotericamente o sétimo princípio, não é princípio individual: pertence à Alma Universal.19 O sétimo Princípio é o ovo áurico, a esfera magnética que envolve o ser humano e o animal”20;

* É “o superespírito” 21;
“ É o “Si [Self] divino-espiritual ou universal” 22;

* “[ tman] e Buddhi 23 não podem ser predicados como tendo qualquer coisa a ver com um homem, excepto no sentido em que o homem está imerso neles”24.

Esta última asserção coliga-se, naturalmente, com outra afirmação de HPB: “Paramâtman, o Sol Espiritual, pode ser considerado como fora do Ovo Áurico humano, do mesmo modo como está fora do Ovo Macrósmico ou Ovo de Brahma 25. Embora cada átomo e partícula estejam, por assim dizer, impregnados desta essência Paramátmica, é impróprio chamar a Paramâtman de ‘Principio humano’ ou, sequer, de ‘Principio universal’, porque tais expressões poderiam sugerir uma falsa ideia do conceito filosófico e puramente metafísico. Não é um princípio mas, sim, a causa de todos os princípios. Esta última denominação somente é aplicada pelos ocultistas para designar a sombra de Pâramatman, o Espírito universal que anima o Cosmos ilimitado, dentro ou mais além do Espaço26 e do Tempo.

Buddhi serve como veículo desta sombra Paramátmica. Buddhi é universal, como também o é o tman humano”27.

Ainda na concepção Teosófica, tman, em si mesmo, está mais além de qualquer involução ou devir evolutivo, pelo menos até onde podemos atingir, como está além de qualquer encarnação ou existência condicionada. É o que decorre, evidentemente, da terceira das Proposições Fundamentais da Doutrina Secreta: “A identidade fundamental de todas as Almas com a Super-Alma Universal, sendo esta última, ela própria, um aspecto da Raiz Desconhecida; a peregrinação obrigatória de todas as Almas, centelhas daquela Super-Alma, através do Ciclo de Encarnação (ou da ‘Necessidade’), de acordo com a Lei Cíclica e Cármica, durante todo esse período. Por outras palavras: nenhum Buddhi (Alma Divina) puramente espiritual pode ter uma existência independente e consciente antes que a centelha saída da pura Essência do Sexto Princípio Universal – isto é, da Super-Alma – tenha (1) passado através de cada forma elementar do mundo fenomenal deste Manvantara e (2) adquirido a individualidade, primeiro por impulso natural e depois à custa dos próprios esforços conscientemente dirigidos (e regulados pelo seu Karma), percorrendo assim todos os degraus…” 28, etc. Com efeito, alude-se ao sexto princípio, não ao sétimo, e a Buddhi, não a Âtman.

Por isso mesmo é que tman é permanência e duração eterna, mais além de todas as alterações e mais além de todas as separações. “Não é perdurável tudo quanto vive, respira e tem o seu ser nas ondas fervilhantes do mundo ou plano da diferenciação” 29. Contudo, “através de um processo de negação [de consciência] que se estende a todos os condicionalismos e limitações [upadhis] – por meio do aforismo ‘não é isto, não é isto’ [neti, neti] – pode chegar-se à realização da identidade da alma individual com o Eu Supremo, tal como indicado nas Grandes Sentenças [Mahâ-Vâkyas]” 30.

Enfim, por não ter atributos excepto a inerente Si-mesmidade plena e sem limites, a tman se aplicam as belíssimas palavras contidas no Livro de Dzyan, Estância I: o Eterno Não-Ser é o Único Ser 3132.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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1 Cfr., nomeadamente, Blavatsky Collected Writings, Vol. XII, Wheaton e Chennai, 1980, p. 526. Traduzido em Português em A Doutrina Secreta, Vol. VI, Ed. Pensamento, São Paulo, 1973, p. 89: “… tman não é um princípio individual mas, sim, uma radiação de e una com o Logos Imanifestado” (sublinhado nosso). O termo “radiação”, como HPB expressa algures, quer significar a total ausência de separação, ainda mais do que “emanação”.

2 Os seis veículos ou princípios a partir de tman: Buddhi (Alma Espiritual), o mais directo; depois, Manas (Mente), Kâma (Desejo Egotista e Passional), Prana (Vitalidade), Linga-Sharîra (Duplo Astral) e Stula-Sharîra (Corpo Físico; em rigor, como HPB menciona na sequência do trecho citado na nota anterior, também não é um Princípio).

3 A Doutrina Secreta, Vol. I, Ed. Pensamento, p. 86.

4 Cfr. Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinett, Vol. II, Editora Teosófica, Brasília, 2001, pp. 381 a 395.

5 Assim escreveu H. P. Blavatsky em A Doutrina Secreta: “Será talvez conveniente declarar, em termos inequívocos, que os ensinamentos consubstanciados nestes dois volumes, por mais incompletos e fragmentários que sejam, não pertencem exclusivamente nem à religião hindu, nem à de Zoroastro, nem à da Caldeia, nem à egípcia; e tampouco ao Budismo, ao Islamismo ou ao Cristianismo. A Doutrina Secreta é a essência de todas elas”. Opus cit, vol. I, p.12.

6 Várias vezes temos sustentado o interesse de ponderar perspectivas diferentes ou mesmo opostas, quando inteligentes ou fundamentadas. Tal sempre nos enriquece, mesmo quando fundamentalmente as continuemos a rejeitar – mas de mente aberta.

7 Alegando que é esse o seu modo de evitar os extremos do eternalismo ou essencialismo e do nihilismo.
8 Os teosofistas repararão na afinidade com o ensinamento de Helena Blavatsky sobre o Um Princípio omnipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, sobre a Realidade Absoluta, destituída de qualquer atributo senão ele(a) mesmo(a).
9 “Os ensinamentos da Escola Jonangpa se originam de Yumo Mikyo Dorje (yu mo mi bskyod rdo rje), um yogui do século XI. Ele foi discípulo de Somanātha, o Paṇḍit versado em sânscrito e mestre Kālacakra de Kashmir, que traduziu para o tibetano o grande comentário ao Kālacakra, Vimalaprabhā. Yumo teria recebido os ensinamentos Jonangpa ao praticar as Seis Yogas Kālacakra no Monte Kailasa, no Tibete ocidental. Os ensinamentos Jonangpa incluem primordialmente a transmissão Kālacakra e a doutrina do “Vazio de outro” ou Shentong (gzhan stong). Yumo expôs esses ensinamentos como uma “doutrina secreta” (lkog pa’i chos). No entanto, ele não colocou esses ensinamentos em escrito (…) a tarefa de colocar os ensinamentos por escrito coube a um sucessor, Dolpopa” (David Reigle e Nancy Reigle, Os Livros Secretos de Blavatsky e a Tradição-Sabedoria, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2017, p. 51.

10 O que é perfeitamente afim com a Teosofia, e a sua tripartição de Espírito, Alma e Personalidade fenomenal.

11 “É muito importante ressaltar que o termo tman, frequentemente mal traduzido como “eu” ou “ego”, nesse caso, não se refere a uma existência individual, nem que os fenômenos e o ‘eu’ constituam seres inerentemente existentes. Pelo contrário, o ensinamento se refere ao Ser não-dual, presente em tudo, sem distinção, que não percebemos por estar obscurecido pelas perturbações mentais (kleshavaranas e jneyavaranas), incluindo a ignorância (avidya) de se imputar existência inerente ao eu e aos fenômenos”. In http://budismoshentong.blogspot.pt/p/bibliografia.html

12 Ver, por todos, Kamaleswar Bhattacharya, L’Ātman-Brahman dans le Bouddhisme Ancien, Publications de l’École française d’Extreme-Orient, Vol. XC , École française d’Extreme-Orient, Paris, 1973; The Atman-Brahman in Ancient Buddhism Canon Publications, Cotopaxi, Colo., 2015. Várias citações desta obra, e considerações adicionais sobre a questão tman/Anâtman, podem ser encontradas em David Reigle e Nancy Reigle, Os Livros Secretos de Blavatsky e a Tradição-Sabedoria, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2017.

13 A Chave da Teosofia, Edições 70, Lisboa, 1978; p. 82; Editora Teosófica, Brasília, 1991, p. 90.

14 Idem, pp. 111 e 124.

15 Ibidem, pp. 87 e 98.

16 Ibidem, pp. 136 e 156.

17 Idem, Editora Teosófica, p. 155:

18 A Doutrina Secreta, Vol. I, p. 223;

19 Ou seja, Paramâtman.

20 Blavatsky Collected Writings, Vol. XII, pp. 524-5. Em Português, A Doutrina Secreta, Vol. VI, p. 90.

21 Idem, pp. 545 e 102.

22 Blavatsky Collected Writings, Vol. XII, p. 530.

23 Ver nota 2.

24 The Secret Doctrine Commentaries. The Unpublished 1889 Instructions, I.S.I.S, Foundation, The Hague, 2010; p. 644.

25 Está aqui configurada a importante chave hermética das analogias ou correspondências: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima, para realizar os prodígios de uma só coisa” (conforme a Tábua Esmeralda, que, segundo HPB, é o único texto hermético chegado intacto e sem desvirtuações até hoje).

26 H. Blavatsky, nesta passagem, refere-se apenas à noção comum, e limitada, de Espaço. Veja-se outro nosso artigo nesta mesma edição.

27 Blavatsky Collected Writings, Vol. XII, p. 623; A Doutrina Secreta, Vol. VI, p. 148.

28 A Doutrina Secreta, Vol. I, p, 84.

29 Blavatsky Collected Writings, Vol. XII, p. 629; A Doutrina Secreta, Vol. VI, p. 154.

30 Shankârâchârya, tma-Bodha, 30 (traduzido em A Mente Dual – Da Escravidão à Liberdade, José Manuel Anacleto e Isabel Nunes Governo, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2010; p. 69.

31 A Doutrina Secreta, Vol. I, p, 94.

32 Estamos convictos de que o termo grego “átomo”, ἄτομον (“átomon”), deriva do sânscrito “âtman”. O “átomo” grego tinha o sentido de “o elemento mais radical, aquele que (já) não é divisível”, o que de algum modo corresponde ao conceito de âtman. O próprio vocábulo de origem grega “atmos”, significando “vapor aéreo”, lhe é aparentado e alude ao conceito de âtman como a homogeneinade indissociada de toda a Vida, o “Self Universal”. Em sânscrito, “ tman” tinha ainda o sentido de “respiração”, “sopro”. Na primeira parte do Rigveda, o termo âtman tinha o sentido de “sopro”, e apenas na segunda vem a ser usado com o sentido de “self”. Muito curiosamente, no Alto-Germânico Antigo (o estágio inicial da língua alemã que cobriu o período em torno do ano 500 até 1050), “âtum” significava igualmente “sopro”, “respiração”.
Em sânscrito, propriamente o sentido de átomo encontramo-lo na palavra “anu”. “Aníyámsam aníyamsam (o mais pequeno dos pequenos)” é um dos epítetos de Parabrahman, sendo descrito como o menor que o mais pequeno átomo, e maior que a mais imensa esfera ou universo: Anagranyam e Mahatorvavat” (Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol II, p. 63).

Ecologia

Ética Ambiental – do Antropocentrismo à Espiritualidade

Nos bosques (…) não sou nada; vejo tudo;
as correntes do Ser Universal circulam através de mim;
sou parte ou parcela de Deus

Ralph Waldo Emerson

A Terra já foi um paraíso. O impacto ambiental antropogénico, acelerado a partir dos anos cinquenta do século passado, colocou grande parte da vida em perigo, incluindo a sobrevivência da humanidade. Antropoceno, ecocídio, alterações climáticas, poluição, desaparecimento de espécies, destruição das florestas e da biodiversidade, eventos meteorológicos extremos e esgotamento de recursos são factos da contemporaneidade. Estamos perante uma nova extinção em massa, e a Natureza, entidade viva de complexa vida sagrada, nossa mãe, suporte de vida e de bem-estar, encontra-se reduzida a um objeto, que pode ser explorado e utilizado desenfreadamente por uma espécie, a Homo sapiens, conforme a escala da sua ganância. A humanidade comporta-se ignorantemente como um vírus sobre a Terra que destrói o seu hospedeiro, esquecendo que ela é também o hospedeiro e a morte deste conduz inevitavelmente à morte da humanidade na Terra.

Vivemos atualmente uma crise multidimensional e caminhamos entre o abismo e a esperança da salvação, qual analogia à evolução da Alma Espiritual, com a agravante cármica de se perder para sempre toda a beleza contida na materialização viva da consciência celeste, expressa em milhares de cores, sons e formas patentes na biodiversidade terrestre, que encanta e eleva o Sopro humano, e do imenso sofrimento evitável que infligimos aos outros seres vivos, que são nossos irmãos neste belíssimo recanto Solar. Visto do espaço somos uma poeira cósmica que ainda cintila de beleza viva, e que gira em espiral à volta de uma entidade maior que é a Via Láctea. Quando observamos a Terra de fora, todos os indivíduos, todas as etnias humanas, todas as espécies de seres vivos, todas as serras, florestas, rios, lagos e mares, todos os reinos da natureza não têm fronteiras e são em conjunto a Terra. Há uma unidade subjacente a tudo e a humanidade é também a flor, a árvore, o animal, a montanha, a nuvem, o vulcão e a própria Terra. Nada se encontra separado. O que seria de nós sem a água que sacia a nossa sede, sem o fruto que nos alimenta, sem o ar que respiramos ou sem a beleza que nos inspira? Se por algum motivo os pássaros deixassem de cantar, uma parte de mim seria seriamente abalada.

A crise multidimensional, cujo sinónimo é a crise ecológica, foi percecionada nos anos sessenta do século XX, com especial destaque para a bióloga Rachel Carson e a sua magnífica obra “Primavera Silenciosa”, que alertava para os efeitos prejudiciais da indústria agroquímica sobre a Natureza. A partir desse momento emergiram pequenos grupos académicos que refletiram sobre o problema global. A abordagem inicial era ampla, incluía política e filosofia ambiental mas, pouco tempo depois, face a divergências de atuação, deu-se o divórcio entre ambas, passando a filosofia a debruçar-se a priori nas causas, focalizada especificamente na ética, e a política a posteriori, na resolução tecnológica e económica dos problemas detetados. Surgiu assim a ética ambiental, uma nova disciplina filosófica que debate as causas mais profundas que deram origem à crise ecológica, as razões subjacentes à ação e à relação que o ser humano tem com a Natureza e a necessidade de rever o conceito moral dessa relação.

A ética ambiental evoluiu rapidamente para uma pluralidade de modelos, com perspetivas monistas e pluralistas; antropocêntricas, biocêntricas e holísticas; utilitárias, fundeadas nas virtudes e pragmáticas; científicas, ancestrais e espirituais ou colocando a tónica no valor intrínseco face ao valor utilitário e os dos indivíduos face ao todo. Direitos dos animais e direitos da Natureza são clamores que surgiram naturalmente no seu seio. Algumas correntes da ética ambiental assumem uma complexa teia de modelos, ao incorporarem perspetivas de outras correntes.

A ética ambiental no seu conjunto é uma teoria de ação para o ambiente. Indagando sobre o tipo de responsabilidade que deveremos ter para com o ambiente, a natureza ou as gerações futuras, a ética ambiental recoloca o ser humano no seu envolvente natural, mostrando que ele não é um ser à parte da natureza, mas, pelo contrário, é parte integrante dela (Varandas, 2007 in SEA). Trata-se de uma ética inovadora, que incorpora valores de uma cidadania dilatada à esfera ambiental, num balanço entre direitos, responsabilidades e cuidados, e em constante dinâmica reflexiva multidisciplinar, capaz de expandir a consciência humana a todo o cosmos. Esta complexa teia, que incorpora saber tradicional e hegemónico, consciência e participação, envolve três dimensões: reflexão, relação e ação, num balanço que evita as consequências negativas da atividade humana sobre a Natureza e procurando sempre a harmonia universal. Trata-se de um excelente fórum de debate em torno das causas da crise multidimensional contemporânea – crise espiritual (indivíduo), crise social (humana) e crise ambiental (planetária) – e aponta, simultaneamente, para novos caminhos direcionados para a paz, a evolução e o preenchimento interior, para a beleza, a sustentabilidade, a equidade, a justiça social e a consideração pelas outras formas de vida e os ecossistemas, numa abordagem integrada dos problemas.

As Dimensões da Ética Ambiental
A ética ambiental comporta várias dimensões de consideração moral. A perspetiva antropocêntrica atua na natureza unicamente para preservar ou proporcionar o bem-estar, a qualidade de vida e a saúde das presentes e futuras gerações de seres humanos. Na ótica dos defensores desta apreciação, a natureza só possui valor utilitário, ao contrário das correntes não-antropocêntricas, onde este valor deixa progressivamente de fazer sentido, e a defesa dos seres não-humanos e da natureza passa pelo valor intrínseco que cada indivíduo, a vida ou o sistema possuem, independentemente do valor instrumental que advém para os seres humanos. As correntes da ética ambiental expandem-se conforme a dimensão da moralidade que abarcam. A defesa dos animais superiores, patente na ética animal, considera a senciência, a individualidade, o comportamento inteligente, a personalidade, os sentimentos, a consciência de si próprio e a capacidade de compreender conceitos abstratos, factos que são utilizados para definir os seres humanos e que agora reconhecemos noutros seres, como aspetos isolados ou agregados, para atribuição de direitos a estes seres. Por exemplo, o estatuto de pessoa não-humana conferido aos cetáceos por um grupo alargado de investigadores do comportamento animal e de filósofos reunidos no Canadá, estatuto este ratificado pela República da Índia, com legislação própria, e mais recentemente pela França, proibindo os espetáculos com golfinhos e baleias ou o cativeiro destes seres que nasceram livres. Por sua vez, o biocentrismo alarga a moralidade a todos os seres vivos, e o ecocentrismo, a esfera de considerabilidade moral mais alargada, inclui os grupos, os ecossistemas e a natureza no seu conjunto, com os seus elementos bióticos e abióticos – seres vivos e o ar, água, solos, luz, etc. Não conseguimos separar o ambiente e os seres que habitam esse meio, porque ambos se relacionam, interagem e coevoluem.

Holismo
O holismo é a característica que subjaz a todas as correntes ecocêntricas da ética ambiental. A atribuição de valor intrínseco e direitos da Natureza, nomeadamente às comunidades bióticas, que podem ser rios inteiros ou suas partes, montanhas, florestas, corais, biomas ou todo o planeta Terra, é transversal face à perceção da inter-relação e interdependência profunda que existe em todos os componentes que formam os ecossistemas. Aldo Leopold na sua obra inspiradora Pensar como uma Montanha (A Sand County Almanac, 1949) propõe uma nova ética fundada na ideia de que somos parte integrante de um todo e, por essa razão, o ser humano deverá deixar o caminho de conquistador e destruidor da natureza para passar a ser cidadão do mundo, aprendendo a admirar a natureza, a amá-la e a respeitá-la. A ética da terra é consolidada pela ciência ecológica e pela estética, cujas máximas são: a harmonia da comunidade biótica e a preservação da sua integridade, estabilidade e beleza do mundo natural.

O ecofeminismo luta contra o andropocentrismo, reconhecendo a opressão a que as mulheres têm sido submetidas por parte do homem, identificando-a com a que se tem feito sentir sobre a natureza. Paralelamente, existe uma forte ligação ao aspeto feminino da Natureza, gerador e sustentador de toda a vida, que inclui a sacralidade da Natureza.

A Ecologia Profunda (Deep Ecology) apareceu pela mão do filósofo norueguês Arne Naess, numa resposta à visão dominante do ser humano sobre o (ab)uso dos recursos naturais e em plena oposição à Ecologia Superficial. A Deep Ecology é simultaneamente uma ética ambiental radical e uma ontologia – uma filosofia de vida cuidada centrada na ecosfera. Adota a igualdade biocêntrica e atribui valor intrínseco aos seres não-humanos, elementos abióticos e ecossistemas.

A ciência tem sido a maior aliada das correntes ecocêntricas da ética ambiental, ao relativizar a posição do ser humano no ecossistema, como mais um elo da cadeia universal e não acima desta. Esta ideia vai ao encontro de muitas comunidades tradicionais, onde a sabedoria ancestral permite que vivam em harmonia com a natureza e com respeito pelos outros seres não-humanos. Nessa perspetiva, duas cidades Norte-Americanas, alguns países da América Latina, a India e a Nova Zelândia encontram-se na charneira mundial ao atribuir direitos da natureza a entidades especificas, conforme legislação própria.

A Ecologia Profunda
A palavra radical associada a este movimento refere-se à necessidade de ir à raiz do problema. Isto é, refletir profundamente a nossa relação com a Terra, que deve ser acompanhada de mudanças progressivas mas radicais das nossas atitudes e comportamentos. Para isso é necessário abandonar o paradigma insustentável, consumista e cruel da nossa sociedade, para uma vida centrada na bondade, na liberdade, no respeito e na riqueza interior. Ela reúne ciência, tradição, religião, filosofia, arte e espiritualidade. Embora a Ecologia Profunda inspire alguns princípios fundamentais, esta filosofia não possui dogmas que têm de ser seguidos cegamente. Cada indivíduo deve construir e desenvolver a sua própria ecosofia, uma filosofia prática, fundada no autoconhecimento, fruto da sua vivência em comunhão com a Natureza e de uma reflexão constante sobre os mistérios da vida. Um questionar cada vez mais penetrante sobre as relações ecológicas, capaz de levar o indivíduo a expandir a sua consciência até conseguir identificar-se como parte do todo, isto é, à sua Autorrealização (Devall & Sessions, 2004) – a compreensão da teia da vida, interconectividade e interdependência ecológica, longe da dualidade sujeito e objeto ou da separação entre o Ser Humano e a Terra. A Natureza é compreendida como uma unidade indivisível, que inclui o Ser Humano. Assim, a proteção da Natureza é apercebida como a ‘minha proteção’, e a maturidade do indivíduo dá-se quando o círculo de identificação é o mais alargado possível, o que leva inevitavelmente à espiritualidade. Este é um termo mal compreendido, tanto nos meios académicos como nos religiosos, que devemos tentar perceber melhor.

A Espiritualidade
A espiritualidade não é nenhum dogma religioso ou qualquer tipo de organização humana. O seu conceito é inefável. Podemos contudo identificar alguns aspetos intrínsecos, como a capacidade do indivíduo penetrar nos mistérios mais profundos do cosmos e despertar para uma Realidade percecionada unicamente na profundidade do seu interior que vislumbra a unidade da vida, descrita por místicos como a consciência divina e por investigadores contemporâneos como a consciência quântica não local. O contato com esta Realidade interna é transformador e transmuta toda a ação do indivíduo no mundo. Ele passa progressivamente a ser um agente criativo que labora em beleza, harmonia e cooperação com a Natureza do Logos.

A Espiritualidade e a Ecologia Profunda
Fritjof Capra afirma que a ecologia e a espiritualidade encontram-se fundamentalmente ligadas porque a consciência ecológica profunda é em última análise uma consciência espiritual. Assim, a Ecologia Profunda ao estimular a investigação aberta, pertinente e conectada, bem como uma prática de vida esclarecida, cuidada, ligada e harmoniosa com toda a vida, encerra o caminho para a espiritualidade. Este caminho advém da emoção e da perceção da unidade que existe na ecosfera e na inter-relação de todos os elementos cósmicos. Assim se explica o altruísmo, a compaixão, a fraternidade, a solidariedade, a justiça e a honestidade, que alimentam uma ética abrangente, sustentada pela pertença de todos os indivíduos (humanos e não-humanos) e comunidades bióticas à mesma consciência não local. A análise que Einstein faz numa carta publicada no New York Post é bem elucidativa: um ser humano é uma parte do todo, a que chamamos “Universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experimenta-se a si próprio, aos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – uma espécie de ilusão ótica da sua consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas que nos são chegadas. A nossa tarefa é libertarmo-nos desta prisão, alargando o nosso círculo de compaixão até ao ponto de abraçar todas as criaturas vivas e toda a natureza na sua beleza.

A Ciência como a Grande Aliada da Espiritualidade
Tal como Einstein, muitos outros pesquisadores conseguiram vislumbrar uma Realidade maior, que se encontra para além da esfera pessoal e do evidente material. A ciência depois de uma período ‘medieval’ em que reduziu a Natureza a uma máquina, negando qualquer outro elemento preponderante na análise dos sistemas complexos, não resistiu às questões inquietantes dos fenómenos da vida, nem das propriedades emergentes dos conjuntos, que não se manifestam nos seus elementos isolados. A visão elementar do racionalismo materialista não se coaduna com a nova ciência transdisciplinar e holística, mais em consonância com a complexa teia da vida. Muitas evidências científicas apontam para a interligação e inter-relação entre tudo o que existe. O ser humano, tal como os outros seres, são elos dessa enorme cadeia de vida. É verdade, que dadas as nossas limitações atuais, muitas das evidências científicas que suportam teorias sólidas, dificilmente terão uma apreensão total do fenómeno ou serão amplamente confirmadas pela perspetiva tradicional. Mas isso não invalida a sua existência. Deixo alguns exemplos para serem futuramente aprofundados: o princípio de vida intrínseco – que existe em todos os seres vivos e que os diferencia da matéria morta. Os constituintes de uma árvore e a madeira são os mesmos, mas a árvore tem algo que a anima e que é capaz de se renovar. Da mesma maneira, os campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake – uma espécie de memória coletiva, que está por detrás das formas de todos os seres e tem efeito organizativo sobre o seu comportamento. Esta teoria tem repercussões na noosfera de Teilhard de Chardin – uma rede formada pelos pensamentos interconectados de todos seres humanos, com repercussões à cibernética e à internet. A teoria Gaia de James Lovelock – em que todo o planeta Terra se comporta como um superorganismo, num complexo sistema biogeoquímico que regula o clima e mantém as condições homeostáticas indispensáveis à vida. Esta teoria também está ligada àquilo que a Ecologia nos mostra – uma teia de vida que tudo une, biota e abiota, patente no fluxo de matéria e energia nos ecossistemas. Nada consegue sobreviver sozinho, quanto mais evoluir. Curiosamente, descobriu-se recentemente que as árvores conseguem comunicar entre si e entreajudam-se mutuamente através de uma internet radicular constituída por fungos. As Leis da Física – dão-nos a entender um Princípio organizador subjacente a toda a matéria. Também, a teoria da ordem implícita de David Bohm – uma teoria quântica que revela a interconectividade de tudo o que existe e que cada elemento individual pode revelar informação sobre cada outro elemento no universo. Esta teoria prova o papel da intuição e da meditação como chaves para percecionar realidades mais profundas, porque cada ser humano, como partícula do universo, tem a capacidade de percecionar qualquer informação contida noutra partícula ou entidade. Por último, a estrutura do cosmos – revelada por supercomputadores, expõe a união da matéria a nível macro pela influência da matéria escura. Tudo está ligado, enxames de galáxias por elos invisíveis. Assim, a ciência, como disse Carl Sagan (1996), não é só compatível com a espiritualidade mas também é uma fonte de espiritualidade profunda.

Resumindo, há uma ligação entre tudo o que existe, do ínfimo ao macro, do pó à vida. A separatividade apreendida pela nossa mente não passa de uma ilusão. Assim, a crise que vivemos é também uma crise de perceção, e a forma distorcida como vemos e sentimos o mundo é, provavelmente, a grande promotora da destruição maciça do nosso planeta, a casa que simultaneamente habitamos e somos.

A Teosofia e a Ética Ambiental – A Ecologia Espiritual
As correntes ecocêntricas da ética ambiental respiram teosofia. Na sua maioria são clusters que congregam conhecimento científico com sabedoria ancestral, filosofia com prática, arte com espiritualidade. Esta mescla de estudo comparado das religiões, filosofias e ciência é a base do estudo teosófico. A ética da terra de Aldo Leopold teve influências diretas da teosofia e dos místicos Ouspensky e Gurdjieff (Pecotic 2005; Prior 2011). Rachel Carson, ambientalista pioneira, foi apreciadora do movimento transcendentalista americano, reconhecido por incorporar aspetos da filosofia oriental e da cosmovisão indígena. Paralelamente, é conhecida a ligação da bióloga à antroposofista Marjorie Spock. A obra de Carson, “Maravilhar-se, reaproximar a criança da natureza”, reflete muito da pedagogia Waldorf de Rodolf Steiner. Também são conhecidas as ligações à teosofia de Albert Einstein, Fritjof Capra, Rupert Sheldrake, Amit Goswami, Jane Goodal, entre outros, e o enorme contributo que deram à causa ecológica. Certamente que a teosofia foi uma forte fonte de inspiração para eles, traduzida numa ação positiva sobre o mundo.

A sacralidade do mundo natural e a conexão mística entre as mulheres e a Natureza encontra ecos de espiritualidade no ecofeminismo. Todavia, de todas as correntes da ética ambiental, a ecologia profunda será aquela que mais se identifica com a teosofia e vice-versa. Na sua base encontra-se a unidade da vida oriunda da filosofia oriental e de Espinosa. Incorpora ciência e intuição e incentiva cada individuo a trilhar sem dogmas o seu próprio caminho espiritual de autoconhecimento e de autorrealização. O egoísmo e o antropocentrismo são incompatíveis com a evolução. Por esses motivos, o termo ecosofia, cunhado por Arne Naess, bem poderia ser sinónimo de teosofia. A ecologia profunda é simultaneamente uma ecologia interior, baseada nos mesmos princípios de equilíbrio e integridade patentes num ecossistema saudável (Gore, 1993) e uma ecologia integral, que engloba as expressões panteísta (tudo é Deus) e Pan-en-teísta (Deus está em tudo) (Leonardo Boff). Na teosofia será mais correto falar de uma ecologia espiritual, porque incorpora uma cosmoética (ética divina) que reconsidera a dimensão espiritual da vida, tanto no mundo visível, como no interno e no oculto.

A destruição do planeta deve-se à ignorância, ao fim da sacralidade da Natureza, ao culto do materialismo, a uma tecnociência sem alma e ao egoísmo. A solução para os problemas ambientais e para a evolução da humanidade encontra-se na reposição de Brahma-vidya, a sabedoria divina, que o proêmio da Doutrina Secreta da Madame Blavatsky traduz. Nele podemos constatar a unidade da vida e do universo (uni-multiverso) no princípio omnipresente, eterno, ilimitado e imutável (…) e indivisível e na identidade fundamental de todas as almas com a Super Alma Universal (…) bem como a peregrinação obrigatória de cada alma – uma centelha da Super Alma – através do ciclo de Encarnações durante todo o período, de acordo com a Lei Cíclica e Cármica. Geoffrey Hodson acrescenta: o homem que mergulha de forma bem sucedida na sua própria natureza e existência interna, de volta ao seu Centro e Âmago, encontra a única fonte de todos os homens, de todos os seres, de toda a existência. A Unidade então emerge como a verdade suprema, a verdade eterna. “Todos são tão-somente partes desse estupendo Todo”. (…) Todos são um. Minerais, plantas, animais, homens, Super-homens, Anjos, Arcanjos, mundos, sóis, estrelas e galáxias de estrelas – todos são um, inseparavelmente unidos.

A teosofia acrescenta um plano cósmico evolutivo complexo, que não exclui qualquer entidade, mesmo a mineral. Isso quer dizer que não há recursos, mas ‘vida’ em todo o lado, que deve ser respeitada e cuidada. É precisamente nesta forma deficiente de vermos e sentirmos o mundo fragmentado, sem relação, sem vida importante, que reside a desgraça do mundo. E o pior é que qualquer ação reflete uma reação, e as consequências da destruição do planeta, da aniquilação de espécies e do sofrimento que causamos inadvertidamente aos outros seres, sejam humanos ou não, acarreta um cenário negro para nós. Precisamos de compreender as verdades ocultas na unidade da vida. Deixar florir a centelha que nos anima e ser uma expressão efetiva da compaixão universal. Precisamos de uma ação que cesse a guerra que infligimos contra a natureza e contra nós próprios. A salvação do mundo é a nossa salvação. Precisamos de mudar a nossa ação de exploradores da natureza para jardineiros do Logos, capazes de reparar os danos e repor o paraíso na Terra.

Paz a todos os seres

Jorge Moreira

Licenciado em Ciências do Ambiente, minor em Conservação do Património Natural e mestrando em Cidadania Ambiental e Participação. Investigador colaborador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, Grupo Governança Sócio-Ambiental e Sustentabilidade na Universidade Aberta. Membro da Direção da Sociedade de Ética Ambiental. Autor e voluntário em ações de defesa, conservação, promoção e recuperação do património natural. Investigador e conferencista nas áreas do desenvolvimento sustentável, decoupling, alterações climáticas e ética ambiental, com relevo para a ecologia profunda e ecologia espiritual. Estudante de Teosofia e membro da Sociedade Teosófica de Portugal, onde já desempenhou cargos diretivos.