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Biosofia nº 12

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APRENDER A SER

Psicologia Perinatal   Sonhos É comum, no ocidente, quando se conta a história de alguém, fazê-lo a partir do seu nascimento ou desde criança ou jovem. Mas quando falamos de algumas das personagens mais marcantes, como Buda, Cristo ou Alexandre, o Grande, a narrativa começa, frequentemente, antes do nascimento, até mesmo antes da concepção. Por exemplo, a mãe de Buda, a rainha Maya, sonhou que um belo elefante branco com seis trombas entrava no palácio a correr e fazendo barulho, dando três voltas à sua cama. Mergulhava então no seu ventre através das costelas do seu lado direito. Os pais de Alexandre, o Grande, tiveram os seguintes sonhos: A mãe de Alexandre, Olímpias, sonhou que dormia com Ammon, um deus Líbio com cornos. O pai, Filipe, sonhou ver um selo imperial com a figura de um leão no ventre da sua esposa. O nascimento de Jesus foi precedido de visões e sonhos: “o anjo do Senhor apareceu-lhe…  dizendo “José, filho de David, não receies receber o que vem do Espírito Santo. E ela dará à luz um filho e chamar-lhe-ás Jesus, pois salvará o seu povo dos pecados.””[1] Estes sonhos têm um carácter que é, pelo menos, duplo: profético e sintético. A narrativa diz-nos algo daquilo que as personagens virão a realizar, ao mesmo tempo que guardam em si algo da nota sintética das suas vidas. Muitos de nós também temos estes sonhos de anunciação mas, por veze,s não os valorizamos, seja por simplesmente não estarmos inclinados a isso, seja por recearmos o ridículo. Porém, é importante prestar-lhes atenção, até para que possam ser contados à criança que venha a nascer. Quem sabe lhe poderão, também, servir de estrelas-guia? Sendo parte integrante da vida de personagens marcantes, não se limitam a surgir na história de pessoas ilustres. No seu livro Oriental Birth Dreams[2], Selligson relata inúmeros sonhos que recolheu ao viajar pela Ásia. Embora vários sejam clássicos e históricos, dedica a maioria das páginas aos sonhos de pessoas comuns. Este exemplo ilustra o mesmo carácter profético que encontramos no sonho da mãe de César: “em  1949, a minha mãe sonhou que  apanhava nozes com três outras mulheres que viviam na mesma aldeia. Todas as mulheres encontravam nozes podres, excepto a minha mãe, que encontrava uma noz boa.” Apenas o filho da mulher que teve este sonho sobreviveu à guerra da Coreia que deflagrou nos meses seguintes, tendo perecido as crianças das mulheres que apanharam nozes podres. O Contacto com os Nascituros Outra coisa que acontece tradicionalmente em quase todas as culturas  menos a nossa[3] – e, se calhar, somos por isso menos privilegiados – é a valorização do contacto (seja ele meramente subjectivo ou não) dos futuros pais com a entidade que vai nascer. Ao longo do tempo e das culturas têm existido formas, rituais de contacto com a criança e essa ligação ao seu espírito é importante de várias maneiras. Em termos de saúde mental, faz-nos muita falta. Sabemos pelas estatísticas que as crianças sonhadas ou, pelo menos, desejadas, com quem há uma vinculação precoce mesmo antes da concepção, têm índices de desenvolvimento melhor, ao contrário do que acontece às que experimentam o envolvimento oposto – tratando-se de grandes números, encontramos mesmo neste grupo maiores taxas de criminalidade quando jovens e adultos. Uma história sobre vinculação precoce que encontrei é a seguinte: “Há uma tribo em África em que a data de nascimento de uma criança é contada não a partir do seu parto, nem do momento em que foi concebida, mas a partir do dia em que essa criança foi um pensamento na mente da sua mãe.” “Quando uma mulher decide ter um filho, senta-se sob uma árvore, sozinha, e escuta até perceber a canção da criança que quer vir ter com ela. E ,depois de a ouvir, regressa para junto do homem que será o pai do seu filho e ensina-lhe a canção. Quando, depois, fazem amor para conceber fisicamente a criança, cantam durante parte do tempo a sua canção, como forma de a convidarem a vir.” “Então, quando a mulher engravida, ensina a canção às parteiras e às anciãs, de modo a ser cantada quando a criança nasça, dando-lhe as boas-vindas. E quando a criança cresce, se cai ou se magoa no joelho, alguém lhe pega e lhe canta a sua canção. Ou talvez quando faça alguma coisa maravilhosa, ou durante os rituais da puberdade, como meio de homenagear essa pessoa, a sua canção é cantada pelos que vivem na mesma aldeia.” “E é assim durante a vida. No casamento, ambas as canções são cantadas juntas. E, finalmente, quando esta criança descansa no seu leito, prestes a morrer, todos os aldeões sabem a sua canção e cantam-lha pela última vez.”[4] Acho esta narrativa extraordinária a muitos níveis: como seria importante para uma criança que a sua relação com a comunidade não fosse meramente prosaica ou formal; como seria importante que dedicássemos tempo a aprender alguma coisa que lhe é tão íntima como supostamente lhe é a sua canção. Talvez não seja preciso ouvirmos a melodia ou os versos dos nossos filhos. Podemos encontrar as nossas variações, descobrirmos, por exemplo, o mote de uma determinada criança e aplicá-lo às suas várias situações de vida. Quando começa a existência Outra coisa que gostaria de salientar, a partir desta história, tem a ver com as datas de nascimento, com as datas a partir das quais se é gente. Para a maioria de nós é a partir do momento em que nascemos. Ou nem tanto, já que de um bebé dizemos muitas vezes que “ainda não” várias coisas. Um bebé ainda não fala, se calhar ainda não sente, se calhar ainda não se lembra. É menos humano do que nós, adultos. Ou não é, mas é como se fosse... A Psicologia (re)começa a interessar-se pelo que se passa desde a concepção, mas há quem leve o seu interesse ainda mais atrás. Para os Aborígenes, o início da existência de uma criança pode anteceder em sete anos a concepção biológica. A questão das terminologias está muitíssimo ligada a este tema. Quando estava grávida, pensava comigo mesma: “a minha filha ainda não nasceu e já não é um embrião logo, é um feto. É um feto? Não, não é nada um feto, é uma bebé, uma pessoa! E como é que designamos uma pessoa assim?” De facto, somos pobres em designações para os que ainda não nasceram; quase só temos a designação médica. E, quanto a mim, fazemos com demasiada facilidade colagens de linguagens. Quero com isto dizer que, por o termo médico ser aquele e estar muito bem, descreve uma realidade que é aquela, mas sob a perspectiva médica, ou clínica, ou biológica. O que não descreve é a minha realidade psicológica. E a Psicologia tem uma linguagem, que está, por sua vez, muito bem, mas há outras, como a artística, por exemplo, que nos transmite muito mais. Noto como nos é difícil, nestes assuntos, descolarmos do tradicional, de modo a que nos permitamos viver a nossa própria experiência única. Pessoalmente, encontrei, nas páginas da Associação Americana de Psicologia Pré e Perinatal, um termo que me agrada: “Pré-Nato”. Simplesmente Pré-Nato, aquele que ainda não nasceu. A medicina é, por vezes, muito militante na sua explicação dos fenómenos e na enfatização de uma linguagem que lhe seja concordante. Neste momento, nós todos descrevemos o início da gravidez em termos médicos e convencionais como o encontro de um espermatozóide com um óvulo. Precisamos de recordar que essa é uma explicação temporária. A ciência é feita de teorias temporárias, provisórias, e é bom que seja assim. Uma vez que um dia iremos ter uma nova explicação para a gravidez – pelo menos uma mais inclusiva – qual será ela? A Concepção como Acontecimento Espiritual Existe a ideia, comum a vários grupos de aborígenes, de que conceber uma criança é, essencialmente um acontecimento espiritual. E que a criança escolhe os pais. E que é este evento o que possibilita que a biologia siga o seu curso. Por outro lado, a concepção pode preceder em até sete anos a gravidez, uma vez que acontece num outro plano. O encontro do óvulo e do espermatozóide não é a única nem suficiente causa da concepção. São muito importantes os sonhos com “crianças-espírito” que, na cultura aborígene, são sobretudo território masculino. Além disso, a nova vida que escolhe entrar numa mulher é vista como uma entidade já completa. Esta concepção tem implicações no modo como as crianças por nascer são visualizadas. Enquanto nós as vemos de acordo com as imagens da fetoscopia, os aborígenes vêem as suas crianças-espírito iguais a crianças normais, apenas mais pequenas. Existem várias formas possíveis para as crianças-espírito:

  • Há os Ngalia, de cabelo preto com madeixas claras. Sentam-se sob árvores frondosas, esperando uma mãe compatível. Entretanto, comem a seiva das acácias e bebem orvalho.
  • Os Tiwi são pequenos, de pele escura, maiores na maturidade.
  • Para os aborígenes da Austrália ocidental: são pequenas como avelãs e vagueiam, brincando em poças como qualquer criança.
  • E os Arunta da Austrália Central vêem-nas do tamanho de um pequeno seixo vermelho.

Para dois grupos de aborígenes, Arunta e Worora, o sonho de um homem pode ser mesmo causa da gravidez. Um aspirante a pai deita-se junto a uma nascente e põe-se num estado particular, num sonho da Terra do Sonho, um sonho de contacto entre vários níveis de realidade e consciência. Se a sua empresa tiver êxito, pode surgir uma cobra pitão, carregando na boca a criança-espírito, como uma dádiva, e entregar-lha. Ou então pode vê-la e ouvi-la, na água ou no vento, chamando “pai”. Este, por sua vez, pega na criança e leva-a consigo, deitando-a junto à mulher que será a mãe da criança. E então, aos poucos, não necessariamente de uma vez, a criança entra na mãe. Esta imagem da concepção e da relação pais-filhos é profundamente culta. Esta qualidade advém, para mim, de não ser grosseira mas profundamente subtil, capaz de impor a consciência, o sentimento, o sentido, a emoção e a afectividade a tudo o resto. A paternidade é estabelecida mesmo que os progenitores tenham estado separados. Isto é-nos estranho: mesmo que pai e mãe não tenham tido relações sexuais, aquele homem pode ser o pai daquela criança, porque foi ele quem a sonhou. E, pelo contrário, um casal pode estar junto mas aquela criança pode não ser filha daquele homem porque ele nunca teve nada a ver com ela, nunca a sonhou. No entanto, se a criança nasce, tem um pai algures, e é preciso encontrá-lo. A população aborígene enfrenta o problema do decréscimo da taxa de natalidade, o que se deve certamente a muitos factores; mas, segundo os próprios, uma das causas é a falta de sonhos adequados. O bulício e o modo de vida Ocidental e citadino, ao aproximar-se dos aborígenes, não lhes permite entrar no estado de consciência particular, quase meditativo[5], em que surgem os sonhos das crianças-espírito. Acredita-se também que o nome da criança entra pelo coração do homem, subindo-lhe depois até à cabeça, sendo essa a altura em que o pai se torna plenamente consciente da criança-espírito.   Segundo estatísticas dos E.U.A.[6], pelo menos metade das gravidezes não são planeadas nem, provavelmente, desejadas. A importância destes dados quando pensados em termos de um número vasto de indivíduos é enorme, se considerarmos o que sabemos acerca da importância do sonho e da vinculação precoce no desenvolvimento dos seres humanos. Em complementaridade, há já investigadores que admitem a possibilidade de que o grande número de abortos a nível mundial[7] esteja a contribuir fortemente para o aumento do medo e da ansiedade a nível planetário, gerando um ambiente psicológico de agressividade e insatisfação globais. Comparativamente com o que atrás foi descrito, a maioria de nós contenta-se com e precisa de muito pouco para gerar e educar uma criança. Num tempo em que a ambição permeia quase todas as nossas actividades, vale a pena ter a coragem de viver os processos de gestação em toda a riqueza humana e espiritual de que, no fundo, se revestem. Vale a pena termos a coragem de aceitar o excepcional nas nossas vidas – ao reconhecê-lo, permitimos que muitos outros também o façam e que as transformações necessárias ocorram. Sandra Gonçalves Psicóloga   [1] Mateus, 1:18-24 [2] Sonhos Orientais de Nascimento [3] Recentemente e nos EUA têm começado a ser recolhidos testemunhos desse tipo de experiências. Ver, por exemplo, Soul Trek ou Coming from the Light. [4] História atribuída a Jack Kornfield em “How then, Shall we live” de Wayne Muller, citada no site da Associação Americana de Psicologia Pré e Peri-Natal, em www.birthpsychology.com [5] Um estado em que o corpo está relaxado e a mente continua receptiva. [6] Não disponho, infelizmente, de dados relativos à população portuguesa, mas creio não serem demasiado díspares. [7] Que se estima constituir pelo menos um quarto de todas as gravidezes.

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