Consciência

A Sabedoria Esotérica tem uma posição de Idealismo Objectivo no que concerne à Teoria do Conhecimento. Sustenta que a Consciência constitui a Realidade fundamental e que as suas Leis são as Leis do que percepcionamos como fenómenos e objectos. A ordem que está impressa no Universo objectivo – ou no que consideramos como Universo objectivo – é a ordem numénica da Consciência Cósmica. Em outras palavras, “as chamadas leis da matéria são, falando com propriedade, as Leis que governam a sucessão e a coexistência dos nossos estados de consciência” 1.

Por outro lado, sendo um dos princípios fundamentais do Ocultismo a analogia entre o Macro e o Microcosmos, entre o Ser Universal (Brahman) e o Self/Eu 2 Espiritual ( tman) de cada indivíduo, estabelece-se uma coadunação substantiva entre os diferentes níveis de ilusão em que estão envoltos, pelo que o indivíduo toma como real aquilo que existe no mesmo plano de ilusão universal em que ele está polarizado.

Em dois excertos do Vol. I de A Doutrina Secreta 3 de H. Blavatsky estas concepções estão eximiamente apresentadas. Reproduzimo-los em seguida (os sublinhados não nossos).

“Nada é permanente, a não ser a Existência Una, absoluta e oculta, que contém em si mesma os númenos de todas as realidades. As existências pertencentes a cada plano do ser, incluindo os Dhyân-Chohans mais elevados, são comparáveis às sombras projectadas por uma lanterna mágica numa superfície branca. No entanto, todas as coisas são relativamente reais, porque o conhecedor é também um reflexo, e por isso as coisas conhecidas lhe parecem tão reais quanto ele próprio.

Para conhecer a realidade das coisas é há mister considerá-las antes ou depois de haverem passado, qual um relâmpago, através do mundo material; com efeito, não podemos discernir essa realidade directamente, quando só dispomos de instrumentos sensitivos que trazem à nossa consciência apenas os elementos do mundo material. Seja qual for o plano em que possa estar a actuar a nossa consciência, tanto nós como as coisas pertencentes ao mesmo plano somos as únicas realidades do momento. À medida, porém, que nos vamos elevando na escala do desenvolvimento, percebemos que, nos estádios já percorridos, havíamos tomado sombras como realidades, e que o progresso ascendente do Ego é um contínuo e sucessivo despertar, cada passo à frente levando consigo a ideia de que então alcançamos a ‘realidade’. Mas só quando houvermos atingido a consciência absoluta, e com ela operarmos a fusão da nossa, é que viremos a libertar-nos das ilusões de Maya” (pág. 104).

“Tudo é relativo neste Universo; tudo é ilusão. Mas a impressão experimentada em qualquer dos planos é uma realidade para o ser que a percebe e cuja consciência pertença ao mesmo plano; muito embora essa impressão, encarada de um ponto de vista puramente metafísico, possa não apresentar nenhuma realidade objectiva” (pág. 324).

Poder-se-á perguntar: mas sendo assim, por que motivo todos vemos, ou julgamos ver as mesmas coisas?

Desde logo, porque todos estamos no mesmo plano de irrealidade – o plano da irrealidade (neste caso, a física), onde percepcionamos as coisas. Também porque, embora nos julguemos Eus separados, existe uma só Consciência – Brahman- tman; e essa Consciência segue colectivamente uma descida a planos de irrealidade, cujos objectos, formas e fenómenos são, em última instância, projecções dessa Consciência global. Por outras palavras: tanto a objectividade como a subjectividade separatista são dois pólos da Mâyâ que encobre a Consciência Una ou Ser Puro; dois “lados” do grande “pano”, neste palco de ilusão, que vai descendo e formando o universo material. Shankarâchârya, o grande Mestre advaita, afirmava: “O corpo e o eu nada são realmente senão pura consciência. Tudo é essencialmente consciência”. (Muito mais recentemente, Erwin Schrödinger, um dos pais da Física Quântica, assim se expressou: “As partículas são aparência. Sujeito e objecto são apenas um. Não se pode dizer que a barreira entre eles foi quebrada como resultado das experiências recentes na Física, porque essa barreira não existe”).


1 Subba Row, Consciencia e Inmortalid, Ed. Kyer, Buenos Aires, 1994, p.6
2 “Eu” é aqui entendido como um centro de consciência determinado. Entretanto, ele não pode ser visto separadamente do Todo, em que está inserido, que representa e que essencialmente É (conforme, de resto, a identidade tman-Brahman da Filosofia Vedanta não-dual). O Teósofo e Advaitista Subba Row assinalou a este propósito: “… esta noção do Eu [Self, no original] é ilusória. Praticamente todos os grandes autores sobre Filosofia Vedantina, como também, quer o Buddha quer Shankarâchâria alegaram que essa é uma ideia delusiva (…) o verdadeiro Eu é o Logos [na Vedanta, Ishvara ou, também, Brahman Saguna), enquanto que aquilo que é geralmente considerado Ego é tão-somente um reflexo. Se disserdes, entretanto, que uma imagem reflexa não pode actuar como se fosse um ‘eu’ individual, devo apenas lembrar que o meu sorriso não pode ser transportado para muito longe de mim. Nós verificamos que cada imagem distinta pode formar um centro separado. Pode antever-se em que dificuldade nos acharemos se negarmos isso, e tomarmos o ‘Self’ como sendo em si mesmo uma entidade separada (…) a menos que a personalidade do homem, ou Ego, seja transferida para e subsumida no próprio Logos, a imortalidade não passa de uma simples palavra (Philosophy of the Bhagavad-Gîta, Thesophical Publishing House, Ayar, Madras-Chennai, 2ª ed., 1994, pp. 33-4)
3 Editora Pensamento, São Paulo, 1994

(Parte deste texto está incluída no livro de José Manuel Anacleto, Esoterismo de A a Z, Centro lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2015)

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